Novo momento do Taekwondo “Olímpico” Brasileiro e os resquícios dos velhos vícios que tendem a se perpetuar.

 

Por “n” vezes ao longo da história deste Site, insistíamos que os problemas que assolaram o Taekwondo no Brasil, eram “os problemas”, sem necessariamente satanizar quem os denunciavam. Poucos nos entendiam e muitos, em especial nossa classe dirigente, optava por um caminho um tanto temerário que era tentar calar as vozes destoantes, as críticas.

De nada resolveu!

Estivemos ao longo do tempo, tão certos, que os tais “problemas” arrastaram alguns para o ralo da história entre outros, à ruina. Fora aqueles que viram sua significância virar pó arrastando junto o taekwondo do estado que se diziam representar.

Neste momento, devido ao tamanho descalabro que a gestão - dita “oficial”-, da modalidade levou o Taekwondo “Olímpico” Brasileiro, chegamos ao fundo do poço com uma inevitável intervenção oficial na entidade.

Tentando se recompor, em 24/Abril/2017, foi realizado nova eleição para um novo mandato e quem sabe, um novo rumo para a gestão do Taekwondo que se diz “oficial” no Brasil, muito embora represente uma fatia bastante questionável, possivelmente menor do que se imagina,  do universo de praticantes da modalidade em solo brasileiro.

Durante este período, nos abstemos totalmente deste processo político eleitoral, de modo a que nossas críticas não venham a ser identificadas como choro dos perdedores. Deixem-nos fora desta! Pois, quem conhece nossa história, sabe que do lado dos derrotados e na própria chapa “Muda CBTKD” havia personagens no qual em hipótese alguma nos alinharíamos. Portanto, seguimos nosso caminho, em raia própria, se mantendo em posição crítica ao sistema que tem se apresentado injusto para uma parte significativa do coletivo de taekwondista deste país.


Ainda que uma gestão nova mereça crédito e tempo para dar cara a um novo estilo de gestão, há questões que não oferecem motivos para ânimo, nem muita esperança.

Primeiro porque grande parte dos vencedores deste pleito eleitoral era responsável por sustentar politicamente o ex-presidente afastado que ao que tudo indica pode ter levado a entidade a ruina. Em outras palavras: Parte destes dirigentes é responsável direto pela crise que mergulhou o Taekwondo “Olímpico” Brasileiro. Ainda que constantemente alertados dos riscos e possíveis consequências da estupidez que cacifaram. Ou seja, foram avalista político pelos erros da gestão que a justiça se viu obrigada em frear, porque os Membros da Assembleia Geral, Instância de Poder na entidade responsável em fazê-la, se acovardaram, se omitiram ou quem sabe, em alguns casos mais específicos, foram até cumplices.

Segundo pelo fato de que os vícios e equívocos na gestão esportiva e marcial da modalidade, ao observar pelo perfil e histórico dos dirigentes agora eleitos, devem se perpetuar. Donde, arriscamos alguns motivos que seguem:

  • Conluio político crônico da entidade nacional e estadual no controle de quem fará ou não parte do circo oficial das competições;
  • Reserva dos exames de faixas nas mãos dos dirigentes estaduais se configurando numa clara troca de favores de ordem político/financeiro entre os donos do poder;
  • Controle rígido nas posições dos tais “mestres examinadores”, em forma de regulamentos que mantém os apadrinhados do poder, aqueles que sustentam o poder político regional e central. O controle, no topo da cadeia alimentar, do reservadíssimo e lucrativo mercado dos exames de faixa.
  • Cargos de comissões técnicas (esportiva), nas mãos de detentores de cargos políticos, equívoco este que os mais proeminentes da atual chapa vencedora se esbanjaram na última gestão.

Por estes, entre outros, que imaginamos parte do coletivo do taekwondo brasileiro já, com as “barbas de molho”.

Obviamente que as mazelas que assolam a modalidade têm raízes mais profundas, em parte na cultura do “levar vantagem em tudo” muito evidente no ceio da sociedade brasileira assim como, na nossa herança política, histórica e cultural do próprio taekwondo como arte marcial. Percebe-se assim que os erros, vícios e equívocos não são recentes, apenas reincidentes por conveniência e falta de um projeto político, efetivamente novo para o taekwondo nacional.

A própria cultura funcional da modalidade fala por sí só. Basta observar o modelito em curso, ou melhor...

Como as coisas funcionam?.

O cidadão procura uma academia de taekwondo ...

Compra um Dobok e começa a treinar, em alguns meses vem o primeiro exame. A cada exame que é pago, mais a compra da respectiva faixa e mais registro, mais  a carteirinha na federação estadual. Sem esta, você não existe “legalmente”.

Até chegar ao grau antes da tão sonhada faixa preta (1º Gub) serão no mínimo mais 8 exames que vão subindo gradativamente mais os demais respectivos custos sempre agregados  Em meio a caminhada, em algum momento, o cidadão vai ser induzido a entrar no “Circo das Competições”, para isto, tem de comprar mais, material de competição, no mínimo as proteções.

Fora as taxas de competições que por vezes são caras, mais despesas de viagens, mais hospedagens, mais alimentação. Aff...

Para chegar a Faixa Preta a taxa de exame é pesada, taxada em Salário Mínimo (exclusividade da cultura taekwondista) ou em “Salários” a depender do grau de Dan. Exames estes, geralmente feitos por algum figurão que detém o reservado mercado de exames de faixa em seu respectivo estado. No qual, paga-se o Exames, para um “mestre examinador”, mais a parte do professor, mais o registro na entidade nacional, mais o registro na entidade Internacional (WTF + KKW) se for nas 2 entidades internacionais a pancada em dólares é mais pesada.

Porém,  nada disto te garante nada!

O praticante precisa se manter filiado a uma entidade (associação) legalmente constituída e devidamente “acolhida” pelos dirigentes da respectiva entidade “oficial” estadual que, por sua vez, devem estar legalmente constituído e acolhido pelos dirigentes da entidade nacional “oficial”.

Sem isto nada feito!

Apesar da “epopeia marcial” para se conquistar uma faixa preta, sem a disponibilidade de atender mais e mais as convenientes exigências (demandas “anuais”) do sistema dito “oficial”, nada do que você fez ou investiu vai valer para estes dirigentes.

Quer treinar ou dar aulas? Pois, mesmo que você tenha registro internacional, seja formado em qualquer graduação superior, pedagógica ou educação física ... Mestre na modalidade, ex atleta ... Sem esta subserviência financeira e política a tal oficialidade, você vai, inevitavelmente, experimentar a “clandestinidade” imposta pelos donos do poder que controlam o tal Taekwondo “Olímpico” Brasileiro.

Esta é a realidade posta para os que insistem em atuar na modalidade. Atletas, professores e mestres que sabem muito bem o que significa, em que implica e quais resultados práticos desta política ou cultura que se perpetua e faz do nosso taekwondo o que é.

Injusto, tacanho e excludente.

 

 - O Autor,  José Afonsoé faixa preta, professor, praticante e ativista no taekwondo brasileiro.

 

Artigo Publicado em 02/05/2017, as 23:03hs

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