A experiência de escrever a edição brasileira do livro “Uma Arte Mortal: a História não contada do Tae Kwon Do”

 

(A Killing Art: The Untold History of Tae Kwon Do), do escritor canadense Alex Gillis.

 

 

Gostaria de, primeiramente, agradecer esta oportunidade de compartilhar minhas experiências ao traduzir, pesquisar, entrevistar e escrever para a edição brasileira do “Uma Arte Mortal: a História não contada do Tae Kwon Do” (A Killing Art: The Untold History of Tae Kwon Do), do escritor canadense Alex Gillis.

Esse projeto bacana surgiu por algum acaso anos atrás na minha academia em Porto Alegre, quando eu terminei de ler a primeira edição do livro. Como já tinha relatado antes, eu fiquei fascinado por seu enredo, pois era a primeira obra que eu lia que contextualizava a nossa arte marcial, explicando a origem de várias histórias que nos eram contadas e que somente agora faziam sentido e justificavam o Tae Kwon Do ser o que ele é hoje. O livro não era sobre uma arte marcial milenar treinada por guerreiros lendários, era sobre uma arte marcial moderna e nacionalista usada para empoderar uma nação devastada pelo Período Colonial Japonês e que se envolveu em guerras, espionagem, intrigas e corrupção.

Como professor, recomendei a leitura a todos os meus alunos porque considerei uma obra obrigatória para qualquer praticante de arte marcial que desejasse se aprofundar na história do Tae Kwon Do. Na prática, muito poucos acabaram lendo porque não entendiam inglês – e isto é uma dura realidade de nosso Brasil. Além de termos poucas obras boas sobre Tae Kwon Do em português, temos nosso acesso a grandes obras internacionais restringido pela dificuldade de ler em outros idiomas. Nasceu assim um projeto, que demorei 4 anos para concluir com o auxílio de três alunas, de fazer uma tradução amadora do livro para o uso interno dos praticantes de minha academia.

O projeto tinha sido um sucesso, mas tinha ficado restrito aos meus alunos. O grão-mestre Alexandre Gomes me sugeriu que eu entrasse em contato com um conhecido dele, um mestre argentino que havia trabalhado com o escritor para lançar o livro em espanhol no seu país. O argumento do grão-mestre Alexandre era que o livro era bom demais para ficar restrito a poucas pessoas e que, já tendo uma tradução, talvez o Alex Gillis quisesse lançar o livro em português também. Não me estendendo muito nesta parte, em resumo era o que o escritor queria e estava há anos procurando alguém para isto. Assim, eu embarquei nesta aventura; após o livro ter se tornado um best-seller traduzido e lançado na Argentina, na Grécia e na Alemanha, chegaria enfim a vez do Brasil.

Comecei a conversar com o Alex Gillis em janeiro de 2017; a minha tradução de uso interno era boa, mas neste meio período o escritor havia lançado uma segunda edição, mais completa, com novos conteúdos e com correções em todos os capítulos. Era preciso começar tudo de novo. Mas desta vez eu trabalhei com o próprio escritor e posso dizer que só isso já valia o meu trabalho, porque como fã da obra, tive a oportunidade de traduzir capítulo por capítulo, perguntando cada detalhe, cada dúvida para o próprio autor. O envolvimento dele foi extraordinário; além de sua paciência infinita em responder às minhas milhares de perguntas (e eu garanto que fiz todas as que eu poderia), ele também me pediu que eu fizesse mais algumas correções no livro em cima do feedback que ele havia recebido de mim e dos outros tradutores. Posso dizer assim, com satisfação, que a edição brasileira é mais do que uma tradução da 2ª edição, é quase uma edição 2.5, traduzida a mão por mim em conjunto com o escritor e revisada por uma profissional para garantir uma melhor qualidade.

Falando ainda um pouco da característica visionária do grão-mestre Alexandre, além dele ter tido a ideia da tradução oficial, também foi ele quem primeiramente sugeriu complementar a edição brasileira com capítulos extras falando sobre a história do Tae Kwon Do no Brasil. Para mim, parecia loucura; de todas as edições traduzidas, apenas a argentina tinha feito isso. Dentro do prazo que eu tinha para lançar a edição no Brasil, e sem ter muitas possibilidades para viajar entrevistando pessoas, não tinha como eu escrever algo do nível do trabalho de Alex Gillis. Ele, por sinal, também começou a encorajar que se escrevesse essa edição e, ao término da tradução, eu cedi.

Pensei que poderia fazer uma pequena revisão de literatura e resolvi conversar com José Afonso do tkdlivre, porque se no Brasil teve alguém que tenha feito um trabalho de pesquisa semelhante ao do escritor essa pessoa é ele. E de fato, como eu havia imaginado, ele foi imprescindível para o livro. Se posso dizer hoje que a parte de história do Brasil tem profundidade e embasamento, em muito se deve às décadas de pesquisa de José Afonso.

O que eu não tinha levado em conta, por outro lado, foi a quantidade de taekwondistas brasileiros que haviam interessados na produção de um bom livro e o que aconteceu foi algo muito bacana, porque eu entrevistava uma pessoa e ela me colocava em contanto com outra e com outra, e a parte brasileira foi crescendo e se expandindo. Tanto que, quando cheguei a Carlos Eduardo Nogueira Loddo, tive que pedir mais prazo para o Alex Gillis porque precisava de mais tempo para processar e organizar o grande volume de informação que eu recebi.

Sou muito grato ao mestre Alexandre, ao Alex Gillis, ao José Afonso, ao Carlos Loddo e a tantos outros mestres que me ajudaram. Por causa deles, a pequena resenha tinha virado capítulos e os capítulos viraram um livro dentro do livro, “Histórias do Tae Kwon Do Brasileiro”.

O “Histórias” é proposital, o livro não é algo definitivo, mas sim uma conexão de histórias que escutei, de mestres “old school” e esportistas modernos, de competidores do passado e do presente, sejam da WT ou ITF. “Histórias” que começam com os pioneiros que introduziram o Tae Kwon Do no Brasil, passando pelas competições do passado e disputas políticas até chegar ao inspirador parataekwondo, tendo como protagonista o Tae Kwon Do e a história do Brasil como pano de fundo.

Ao longo da experiência de escrever, me surpreendi e me re-apaixonei por tudo aquilo que nos faz brasileiros e que faz o Tae Kwon Do nacional rico e diverso. Espero que vocês gostem também.

Você pode saber mais do nosso projeto em nossa página do facebook:

https://www.facebook.com/artemortal/

... e pode apoiar o nosso financiamento coletivo no site

www.alster.esp.br/artemortal.

Muito obrigado #artemortal

Por:

 

Mestre Sergio Moller Jr.

 

 

Enviado à Redação Tkdlivre.com 

 

Publicado em 25/09/2018, as 23:30hs