Por: Andrade, Ricardo e Couzemenco, Karina
Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
Orientadora: Profª Ms. Mônica Barcelos

O presente trabalho enfoca as principais características e consequentes benefícios da introdução da prática do Taekwondo, a partir de sua inserção na grade de disciplinas do Ensino Fundamental, traçando paralelos com os PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais.

O tema abordado baseia-se principalmente nos fundamentos psico-pedagógicos, com destaque para o desenvolvimento dos movimentos reflexos, das habilidades básicas, perceptivas e específicas, das capacidades físicas, da auto-confiança, da auto-estima e do auto-controle.

Além da inclusão da referida modalidade no Ensino Fundamental, os autores sugerem a continuidade dessa prática no Ensino Médio e Superior, citando exemplos de sucesso em outros países, objetivando a excelência do treinamento e a descoberta de novos valores – alto rendimento.

Com base na nossa experiência na modalidade Taekwondo ao longo dos últimos vinte e um anos, vimos através do presente trabalho, à luz de uma abordagem dos PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais, ressaltar a importância da inclusão da prática do referido esporte na grade curricular a partir do Ensino Fundamental, visando objetivamente e num primeiro plano, o desenvolvimento dos movimentos reflexos, das habilidades básicas, perceptivas e específicas, das capacidades físicas e da comunicação não-verbal. A partir daí, pode-se ressaltar também a importância do desporto Taekwondo na formação do indivíduo em nível psico-social, estimulando auto-estima e auto-confiança.

Poderíamos discorrer com detalhes sobre modelos adotados em alguns países com relação à prática esportiva, principalmente no que tange ao Taekwondo: Cuba, Espanha, México e Coréia do Sul, mas vamos nos ater somente de forma superficial sobre o tema.

Na Coréia do Sul, berço da modalidade, o que se constata é a prática do Taekwondo a partir dos primeiros anos de idade, por ser uma das mais puras expressões culturais daquele povo, com mais de dois mil anos de história.

Além da prática nas escolas de ensino fundamental e médio, as universidades desenvolvem projetos voltados não só à formação de atletas de alto rendimento, mas também árbitros, instrutores e técnicos.

Já em Cuba, Espanha e México, através de projetos fomentados em conjunto pelas áreas esportiva, educacional e social desses governos, os CAR - Centros de Alto Rendimento, são verdadeiros celeiros de atletas de alto nível, que na verdade são o resultado de todo um trabalho desenvolvido nas escolas de ensino fundamental e médio, fazendo com que o Taekwondo seja mais do que somente o caminho para atletas de nível olímpico, mas sim um agente importante na formação do indivíduo.

No que tange à importância da prática do Taekwondo na Educação Física Escolar, podemos nos reportar aos conceitos empíricos, filosóficos e fundamentais que norteiam essa arte marcial, como:

Cortesia: tem como objetivo mostrar ao aluno a relação de respeito que ele deve ter com todas as pessoas, sejam elas praticantes ou não. Quanto à relação que ele deve ter com os outros praticantes, ele deve estar sempre ciente da hierarquia que existe no taekwondo, respeitando seus superiores e deve ser sempre educado, justo e nunca tratar os outros com desprezo;

Integridade: existe para tentar conscientizar o aluno sobre o que é certo ou errado. Ele mostra que o aluno deve sempre agir de maneira correta, buscar seus objetivos de maneira justa e nunca tentar demonstrar ser superior a ninguém;

Perseverança: tenta mostrar ao aluno que ele não deve desistir de seus ideais por mais difíceis que eles pareçam. Ele deve sempre lutar pelo que deseja conquistar e nunca desanimar perante as dificuldades; • Auto Controle: ter domínio de si mesmo, sendo imprescindível quando nos deparamos com situações difíceis. Esse principio vem mostrar que o maior adversário que temos que vencer são os nossos próprios medos e temores para conseguirmos controlar certa situação; ter domínio de si mesmo, sendo imprescindível quando nos deparamos com situações difíceis. Esse principio vem mostrar que o maior adversário que temos que vencer são os nossos próprios medos e temores para conseguirmos controlar certa situação;

Espírito Indomável: retrata a luta contra quem quer que seja, pela verdade, pelo que é justo, agindo sempre com obstinação.

A partir daí, valores como conduta, ética, exemplo a ser seguido, respeito e dignidade, aliados ao desenvolvimento de uma consciência corporal, fazem com que a prática do Taekwondo seja determinante na qualidade da formação da criança.

É importante ressaltar que a introdução da prática desse desporto deve seguir uma conduta padrão, fulcrada na progressão pedagógica e na evolução psico-motora da criança. Deve-se ensinar não somente executando os movimentos, mas sim de um forma que percebam que tais movimentos têm uma história e uma motivação para existir, devendo-se também, da mesma forma, respeitar os desejos, habilidades, medos e características individuais, onde o Taekwondo propriamente dito, seria inserido aos poucos, de forma subliminar, levando-se em consideração o aspecto lúdico da atividade.

Traçando um paralelo com os PCN, podemos destacar:

• participação de atividades corporais: os alunos devem manter relações equilibradas e construtivas com os colegas, respeitando as características físicas e o desempenho de cada um;
• manutenção de uma atitude de respeito e repudiar a violência: situações lúdicas e esportivas devem desenvolver a solidariedade;
• aprendendo com a pluralidade: conhecer diferentes manifestações de cultura corporal é uma forma de integrar pessoas e grupos sociais;
• capacidade de reconhecer-se como integrante do ambiente: os alunos deve adotar hábitos saudáveis de higiene, alimentação e atividades corporais, percebendo seus efeitos sobre as próprias condições de saúde e sobre a melhoria da saúde de todos;
• prática das atividades de forma equilibrada: a regularidade e a perseverança, regulando e dosando o esforço de acordo com as possibilidades de cada um, permitem o aperfeiçoamento das competências corporais;
• reconhecimento das condições de trabalho que comprometem o desenvolvimento: os estudantes devem identificar as atividades que põem em risco seu desenvolvimento físico, não aceitando para si, nem para os outros, condições de vida indigna;
• desenvolvimento do espírito crítico em relação à imposição de padrões de saúde, beleza e estética: a sociedade divulga esses padrões, mas as crianças devem conhecer sua diversidade, compreender como estão inseridas na cultura que produz esses modelos, evitando o consumismo e o preconceito;
• reconhecimento do lazer como um direito do cidadão: os alunos devem ter autonomia para interferir no espaço e reivindicar locais adequados para as atividades corporais de lazer.

Ainda citando os PCN, encontramos a inclusão dos temas transversais:

• ética: respeito, justiça e solidariedade fazer parte das práticas físicas. O respeito deve ser exercido na interação com adversários. A solidariedade é vivenciada quando se trabalha em equipe. A presença de um juiz, as regras e os acordos firmados entre os participantes são formas de aprender a valorizar o sentido de justiça;
• saúde: estresse, má alimentação e sedentarismo são subprodutos da crescente urbanização. Daí a necessidade de vincular a Educação Física ao cultivo da saúde e do bem-estar das pessoas, superando, em muitos casos, a falta de infra-estrutura pública voltada para esporte e lazer;
• meio ambiente: o contato da escola com áreas próximas, como parques e praças, abre oportunidade para a Educação Física abordar o tema do meio ambiente;
• orientação sexual: idéias como a de que futebol é esporte para homem e ginástica rítmica é ´coisa de menina` ainda se manifestam na sociedade e no cotidiano escolar. Combater preconceitos como esses é uma das missões da orientação sexual;
• pluralidade cultural: adotar uma postura não preconceituosa e não discriminatória é a chave para atingir os objetivos da pluralidade cultural em Educação Física. Para isso, é preciso valorizar danças, esportes, lutas e jogos, que compõem o patrimônio cultural brasileiro, originários das diversas origens étnicas, sociais e regionais;
• trabalho e consumo: o adolescente é alvo da publicidade de produtos esportivos. O professor pode ajudar seu aluno a analisar criticamente a necessidade de possuir determinado produto e, assim, criar a noção de consumo consciente.

Levando-se em consideração que o movimento é um suporte, ajudando a criança a adquirir o conhecimento do mundo que a rodeia, através de seu corpo, de suas percepções e sensações, assim como um esquema corporal organizado, permite que a criança se sinta bem, na medida em que seu corpo lhe obedece, tendo domínio sobre ele, conhecendo-o bem e podendo utilizá-lo para alcançar um maior poder cognitivo, a prática do Taekwondo vai de encontro a toda essa gama de qualidades e características fundamentais na evolução do indivíduo, até porque o desenvolvimento motor fundamental maduro é pré-requisito para a incorporação com sucesso de habilidades motoras especializadas correspondentes ao repertório motor do ser humano.

Vale acrescentar que a soma do domínio técnico da modalidade em questão – Taekwondo, e o conhecimento científico-pedagógico advindo da graduação em Educação Física, será determinante na excelência da qualidade do conteúdo programático a ser desenvolvido e aplicado a partir do Ensino Fundamental.

Citando novamente o modelo adotado em Cuba, México e Espanha, a criança teria um contato inicial com o Taekwondo no Ensino Fundamental, onde o aspecto lúdico iria nortear os fundamentos a serem aplicados, enquanto que no Ensino Médio se daria continuidade à essa formação inicial, dando-se ênfase ao treinamento específico da Arte Marcial e à descoberta de valores em potencial, com possibilidade de se alcançar o status de alto rendimento.

Além do que foi explanado, outras características inerentes às Artes Marciais, não somente ao Taekwondo, podem ser transmitidas sob outro enfoque: a disciplina exacerbada e a hierarquia inquestionável.

Essas duas características, tradicionais das Artes Marciais, sob a luz da Psicopedagogia, devem ter um outro enfoque e uma revisão de conceitos, tendo-se o cuidado de não mudar o perfil do ensinamento marcial, imputando-se ao aluno a disciplina através da conquista do respeito pelo conhecimento transmitido pelo educador, pois o verdadeiro mestre não precisa se anunciar, ele é reconhecido pela sua conduta.

A iniciação ao Taekwondo deve ser entremeada com um trabalho de estimulação para o desenvolvimento das habilidades motoras básicas, que proporcione à criança um repertório motor bem variado e estruturado, com as técnicas do esporte sendo ensinadas de forma bem genérica, com as aulas acontecendo dentro de uma metodologia lúdica, predispondo o aluno a uma situação ótima para o aperfeiçoamento, bem como a especialização do movimento, que deverá ocorrer a partir dos onze anos de idade, em média.

A competição precoce, com enfoque para a performance, pode ter implicações que comprometam o futuro atlético do praticante. Sabemos que, para um bom rendimento como competidor, é necessária a especialização do movimento, e isso pode acarretar lacunas no desenvolvimento do repertório motor do aluno, que serve como base para a sua boa formação como atleta. Há que se considerar ainda, as implicações fisiológicas num organismo em formação bem como os aspectos psicológicos.

No que diz respeito às questões apresentadas, pode-se ressaltar a importância da educação motora como uma atividade prazerosa e com propostas educacionais, não privilegiando apenas a competição, mas acima de tudo proporcionando a auto-superação; não se limitando a conteúdos pré-determinados, mas atendendo aos anseios e às necessidades do indivíduo; não se comprometendo em adestrar movimentos, mas se preocupando com a corporeidade e, acima de tudo, não visando o puro rendimento motor, mas abrindo um leque de opções ilimitadas de movimento, utilizando o Taekwondo como ´pano de fundo`.

Porém, a conclusão geral, é de que o Taekwondo pode ser praticado a partir da primeira idade escolar desde que as atividades sejam adequadas à faixa etária enfocada, respeitando-se os limites fisiológicos, estruturais e psicológicos da criança, pois o conhecimento do próprio corpo e de seus limites ajuda na formação do aluno.

Referências Bibliográficas e Bibliografia

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Matéria gentilmente cedida pelo Site: www.highwayone.com.br/dicas.html