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Entrevista Edmilson Filho













Ms Edmilson Filho



Edmilson Filho, 31 anos. Nasceu em Fortaleza, Ceará, e iniciou nas artes marciais aos 12 anos, no Kung Fu. Após ter assistido uma demonstração de artes marciais e de Taekwondo, no Náutico Clube, começou a praticar Taekwondo, descobrindo então sua verdadeira vocação nas artes marciais. Após inúmeras conquistas em território nacional, Edmilson quis testar suas habilidades fora do país. Sendo assim, viajou por mais de 15 paises, disputando competições, fazendo intercâmbios e seminários. Em seu vasto currículo destaque para o campeonato da Copa Brasil de 97; o bi-campeonato brasileiro 98/99, dentre diversas competições internacionais em que venceu. Foi integrante da Seleção Brasileira nos anos de 1999 e 2000.















Ms Edmilson e sua equipe nos EUA



Atualmente, é 4º Dan e proprietário da First Taekwondo Academy, no oeste dos Estados Unidos, na cidade de Reno, Nevada.

Nessa entrevista, Edmilson fala do taekwondo nos EUA e na Europa e de como é o sistema político-administrativo nesses lugares. E ainda dá uma verdadeira aula de como fazer sucesso como professor de taekwondo.

O que o motivou a sair do país e se estabelecer em outros países como Inglaterra e agora os EUA?

Bom, tudo começou em 1997, quando visitei pela primeira vez os states. Tive convites de passar uma temporada, mas ainda tinha o sonho de participar das Olimpíadas de Sidney, em 2000, por isso fiquei para tentar as seletivas. No final de 1999, nada de classificação; somente a Carmen Carolina teve a vaga; então, resolvi melhorar meu nível técnico fora do País.

Minha primeira parada foi Los Angeles, na academia do Mestre André Alex Lima. Em Los Angeles dei aulas em várias academias, sempre vendo o modo Americano de dar aula e de pensar. As academias sempre com muitos alunos; campeonatos pequenos tinham 500 atletas, tudo muito organizado.

Em 2003 fui para a Inglaterra. De lá, tive a chance de viajar à Europa toda e treinar Taekwondo e também dar aulas. E cada dia eu via que o Brasil não era mais o meu lugar, apesar de sentir saudades, até hoje.

Quais eram suas expectativas no Brasil quando despontou como atleta de alto nível?

Eu sempre tive altas expectativas e deste a faixa branca já queria ser campeão brasileiro, mesmo com todas as dificuldades de estar longe do centro do país, lá em Fortaleza, que é mais perto da África do que de SP (risos). Sempre tive a determinação de ser o melhor possível, de ser campeão mundial, Olímpico etc. Com o passar do tempo, vi que, apesar de não ter chegado lá, tive a oportunidade de treinar com vários campeões mundiais de vários paises. E sou feliz por isso, e sei também que poderia ter sido, mas talvez esse não fosse o meu destino.

Tem alguma lembrança de como a CBTKD te tratou como atleta ou durante o período que integrou a equipe brasileira?

Lembranças, sim, tenho muitas. Não diria da CBTKD, mas do sistema do taekwondo brasileiro. Fui injustiçado muitas vezes. Muitas vezes estive em várias seletivas para a Copa do Mundo, Mundial; ganhava e sempre arrumavam um jeito de me tirarem ou de fazerem outra seletiva em cima da hora. Em grande parte, para colocarem atletas de SP. O porquê disso? Não sei. Pergunte, talvez, aos técnicos da época e ao Diretor Técnico; talvez eles saibam a resposta. Em suma, tenho algumas boas lembranças e outras que eu apaguei da memória, mas que me serviram de lição de vida.

Ai fora a vida de atleta é diferente?

Muita gente pensa que aqui nos Estados Unidos ou na Europa os atletas têm tudo. A realidade não e bem assim. Quando o time viaja pra competição internacional, lógico que é tudo pago. Mas o que torna esses atletas com mais experiência internacional é a condição econômica do país, que dá condições, muitas vezes, ao atleta de viajar para campeonatos abertos por conta própria. E a tranqüilidade de treinar sem se preocupar com o dinheiro da passagem, ou se vai voltar pra casa e não ter dinheiro pra sair no outro dia. Acho que essa é a diferença básica.











GMs Yong Min Kim, GMs Soon Bae Kim (homem forte da Chang Moo Kwan mundial) e Ms Edmilson em visita recente a Coréia.






Quais as diferenças do ponto de vista da organização esportiva que temos dos países que você conhece, com o nosso?

Bom, aqui nos Estados Unidos existem muitas competições e, talvez, cinco vezes mais atletas que no Brasil. Assim, sai talentos, queira ou não; pela quantidade de atletas e competições. Isso é positivo. Já na Europa, países como Franca, Inglaterra, Alemanha, o intercâmbio entre esses países é fácil de ocorrer, por estarem perto um do outro e todos terem um alto nível de Taekwondo.

As federações destes países se preocupam mais com o lado esportivo-competitivo, digamos assim. E estão bem; os resultados mostram isso. Na Inglaterra ainda existe muita política interna. Mas que, de 2005 pra cá, melhorou bastante, aceitando todas as outras federações ditas ´não oficiais` a se filiarem a oficial inglesa ligada à WTF. Com isso, melhorou muito.

E na Organização política, administrativa e marcial, como as coisas se diferem das do Brasil?

Já nessa parte existe muita diferença. Aqui nos States, a USA Taekwondo funciona realmente como uma grande empresa. Para vocês terem uma idéia, tem até sua própria agencia de viagem. Aqui, os filiados a USA Taekwondo não são as Federações, mas sim as academias e os membros.

Você pode praticar até mesmo o taekwndo que você inventou, tipo ´estilo Tkdlivre`. A partir do momento em que você se filia a única coisa que tem que ser igual, são as regras de competição, que são as da WTF. A parte administrativa funciona muito bem, cada um tem seus cargos. Não é como no Brasil, em que o sujeito é presidente e diretor técnico. Ai, se acontece uma briga de faixa branca, liga-se para a CBTKD, para o presidente resolver. Aqui, e na Europa, também, cada função é ocupada e exercida. Cada qual com suas responsabilidades e deveres. Isso faz a coisa toda funcionar de forma muita mais eficiente.

O Tkdlivre entende que a CBTKD comete um equívoco quando se aproveita da sua condição de representante da WTF e do TKD Olímpico para fortalecer seu mando político e os interesses de alguns mestres que se aproveitam desta situação. O que você pensa sobre isto?

Em relação a isso, em minha opinião, as federações e os associados têm uma parcela grande de culpa. A CBTKD é feita dos seus filiados. Mas se os filiados ou presidentes de federações não se reúnem para deixar claro o que querem é bem provável que alguém vai querer tirar proveito disso. Em outras palavras, as federações deveriam se reunir a parte e levar as reivindicações ou sugestões para a diretoria da Confederação. Muitas vezes o que acontece é que os próprios presidentes de federações deixam isso ocorrer, porque de alguma forma tiram algum beneficio próprio.

Em resumo, não é só a Confederação, isso porque a CBTKD são todos. Uma pergunta que me faço sempre é: porque antes dos anos 80 e nos anos 90, não se via tanta gente envolvida com a parte política do Taekwondo? A resposta que eu encontrei é simples: porque naquela época não havia tanto dinheiro envolvido como tem hoje. Hoje, tem COB, lei disso, lei daquilo; daí, alguém quer tirar proveito disso, eu acho.

Como é a independência dos mestres para cuidar do seu grupo marcial nos EUA e Europa?

Bom, cada mestre é responsável pela graduação de seus alunos. Isso, aqui, nos Estados Unidos. Somente se desejar (e ele tem esta opção), ele requisita um certificado da Federação. Mas é totalmente opcional.

Na Inglaterra também é o mesmo modelo. Mas, às vezes, há exames coletivos de Dan`s mais altos.

Em minha opinião, exame de faixa deve ser feito pelo seu instrutor, mesmo porque é ele que acompanha o aluno todo dia e sabe dos pontos fortes e fracos do aluno. Até mesmo o Certicado do Kukkiwon, que na minha opinião não é o ideal, pela simples razão de vir lá da Coreia do Sul. Eles não sabem nem quem é você; não sabem nada sobre a vida do aluno, suas qualificações etc.

O sistema de mestre para aluno, na minha opinião, é o mais eficiente. E se for preciso pôr essa graduação à prova, aí seria outra conversa. Digo isso porque você não tem idéia de quantos 4º, 5º e 6 Dans, com certificado do Kukkiwon e tudo que eu conheço, que não mereciam nem a faixa azul, tecnicamente falando.















Soneca e Edmilson com a cúpula de ensino da Kukkiwon em visita recente a Coréia.





Sendo você, Mestre 4º Dan/Kukkiwon, até onde vão seus limites para cuidar dos seus alunos coloridas, e como é o processo dos exames e registros de Dans dos seus faixas pretas na Kukkiwon?

Para os meus alunos, eu ofereço três certificados de faixa preta. O primeiro, e mais importante, na minha opinião, é o meu, que sou o Mestre direto. O segundo, o da Kukkiwon e o da USA Taekwondo, que é opcional. Eu mando o registro e ele chega pelo correio. Simples assim.

Em 8 anos fora do Brasil, ninguém nunca pediu para ver certificado meu de nada em lugar algum, em nenhuma academia que dei aula ou treinei. Sabe por quê? Porque o que vale mesmo, no final das contas, é sua qualidade técnica e é isso que eu sempre falo para os meus alunos.

Dá para traçar um paralelo das perspectivas profissionais do Instrutor de Taekwondo no Brasil, EUA e na Europa?

No Brasil é difícil viver exclusivamente do Taekwondo. Alguns poucos conseguem. Primeiro porque no Brasil não se dá o exato valor ao profissional de artes marciais. Na Europa não é muito diferente; a maioria dos mestres que eu conheço tem dois trabalhos.

Já nos Estados Unidos o quadro é totalmente diferente. Aqui, existe um pontecial enorme de se fazer fortuna com uma boa academia de artes marciais. Aqui, o Taekwondo é de longe a arte marcial mais praticada no país. Se o mestre for inteligente, verdadeiro, é só uma questão de tempo para ter sucesso com uma escola de Taekwondo.

A minha academia em Nevada, com mais de um ano de vida, já atingiu quase 100 alunos com uma mensalidade de 125 dólares por mês. Fora os exames de faixas, venda de materiais e etc. Cada aluno tem o seu protetor de boca até a garrafinha de água com a marca da academia e logicamente todo equipamento de competição. Esta é uma outra forma de gerar dinheiro.

Que mensagem você daria para o profissional de taekwondo brasileiro?

Seja inovador, verdadeiro com seus alunos. Trate cada aluno de modo especial. Dê atenção a todos da mesma maneira. Não criem favoritos; muitas vezes perdemos alunos e não sabemos o por quê. Mas podem acreditar, se ele saiu, alguma coisa não o fazia feliz.

Se quiser ter sucesso como instrutor, sua prioridade tem de ser a sua academia em 1º lugar. Não se preocupe com política ou federação; a sua academia é que é o seu ganha pão. O resto é secundário. Somos nós, mestres e instrutores, que falamos para nossos alunos sobre associação A ou B, federação disso ou daquilo. Quando um aluno entra na sua academia, ele quer treinar Taekwondo; ele está ali por sua causa. O que quero dizer é que, às vezes, somos nós que colocamos as organizações para os nossos alunos e isso gera problema no futuro. É um processo natural.